15/03/2018

COLUNA #1 – RAFAEL ALVES - ‘’ESTREAMOS: UMA BALA PODE?''

15/03/2018


 
‘’ESTREAMOS: UMA BALA PODE?''




 




Nossa primeira coluna vem com uma entrevista incrível com a nutricionista comportamental Isa Moreno.

Com muita gratidão hoje fazemos nossa estreia, e para esta jornada que espero ser longa aqui no Blog, tive a honra de entrevistar a Nutricionista Comportamental Isa Moreno, em tempos de dietas altamente restritivas ela tem uma visão singular da dieta do ‘’NÃO PODE’’.
Seria possível se deliciar com um hambúrguer em plena quarta-feira ? Em meio a uma alimentação saudável isso se enquadra ? Ela nos responde essas e outras curiosidades nas dez perguntas que seguem abaixo com muita precisão e um conhecimento invejável, no final do post segue o contato da nossa entrevistada e suas redes sociais, divirtam-se e até a próxima semana.

1-    R.A – Em um tempo de dietas restritivas seu trabalho se diferencia pela proteção do termo ‘’comer pode’’ abominada pela maioria dos nutricionistas, o que você pensa sobre esse tipo de era dominada pelo negativismo total na hora de passar uma dieta?
I.M – Não só podemos, como DEVEMOS comer! Vivemos na era do terrorismo nutricional, onde o “poder comer” se tornou alvo de julgamento, produzindo culpa, punição e proibição ao que se come. Perpetua-se o mito de que existem alimentos bons e ruins, o que não é verdade, pois todos eles podem ter seu lugar numa rotina alimentar variada e equilibrada. O que é bom para uma pessoa, pode fazer mal para outra. As dietas restritivas transformam as pessoas saudáveis em doentes fanáticos por alimentos “politicamente corretos”. Restringem o carboidrato sem serem diabéticos, removem o glúten sem serem celíacos, removem leite e seus derivados sem serem alérgicos ou intolerantes, tudo para pertencerem ao culto da moda alimentar do momento.
Alimentar-se normalmente e de modo saudável, não exige que você siga a moda atual. As boas escolhas alimentares podem ser mais fáceis do que imaginamos, não temos o porquê complicar.


2-R.A – No seu instagram você posta sobre como comer desde um hambúrguer até mesmo uma salada de frutas sem neura, no que você se baseia na hora de passar uma dieta para uma pessoa obesa que em um primeiro momento seria totalmente proibida de comer um pedaço de pizza  no final de semana?

I.M – Tendo em vista que a obesidade é considerada uma doença de causa multifatorial e complexa, na hora de orientar um paciente obeso eu não prescrevo “dietas”, exatamente porque a perda ou a falta de autonomia alimentar tem colaborado muito com a prevalência da obesidade. Como tratamento, é realizado um aconselhamento com foco primário na saúde e não apenas no peso. Dessa forma, a perda de peso é vista como uma consequência da mudança do comportamento alimentar. Assim, o paciente obeso vai aos poucos melhorando o seu comportamento e conseguindo a redução de peso em gordura sem maiores esforços, preservando sua massa magra. Durante todo esse processo, ele não irá restringir nada, nem mesmo o docinho e a pizza, mas aprenderá a se orientar pelos sinais de fome e saciedade, aprendendo a comer com atenção, cuidado e para o presente.


3      - R.A – Você acha que a dieta do ‘’não pode’’ faz com que pacientes cheguem a ter medo da comida ?

I.M – Sim, com certeza. Como nutricionista comportamental, eu ajudo o indivíduo a resgatar e a se reconectar com as sensações internas do organismo ligadas à fome, satisfação, saciedade e prazer, eliminando aos poucos a culpa ao comer. Meu desejo é que o paciente tenha sempre confiança em suas escolhas. Toda vez encorajo-o de alguma maneira para que ele tenha uma boa relação com a comida que um dia foi considerada “vilã”.Não trabalho com abordagem prescritiva, ou seja, não entrego dieta, plano alimentar ou listas de “pode” ou “não pode”. Tudo isso é muito limitador, gera medo, ansiedade, obsessão por comida e até colabora para possíveis distúrbios alimentares, o que é muito frequente em quem procurou desesperadamente por um “manual da boa alimentação” ao longo da vida.
A dieta do “não pode” é impositiva e contra produtiva do ponto de vista biopsicossocial, que em nada ajuda na mudança do comportamento alimentar.



4-R.A – Particularmente eu acredito que uma dieta balanceada sem exageros, com aval para comer os chamados ‘’lixos’’ nos finais de semana seja a maneira mais eficaz de atingir resultados, o que você pensa sobre isso ? Tem dias específicos?

I.M – A base da alimentação deve ser constituída principalmente de alimentos in natura e minimante processados, de modo que você se permita a consumir pequenas porções de alimentos demonstradas no topo da pirâmide alimentar (doces, alimentos gordurosos e guloseimas). Remover ou restringir as guloseimas de nossa alimentação pode desencadear compulsão e obsessão alimentar, fazendo com que ocorram exageros no suposto “dia do lixo”. Aquele rodízio de final de semana pode estragar o seu esforço e disciplina semanal, bem como lhe induzir a acreditar que aqueles alimentos “não prestam”, o que é errado.

Comer muito de uma só vez pode ser desastroso para sua saúde, assustando o seu organismo, por não reconhecer aquele excesso como um costume diário. É mais fácil saber dosar do que passar vontade a semana inteira e exagerar aos finais de semana.

O primeiro passo é se livrar da mentalidade de dieta, que perturba a nossa experiência com a alimentação e com o corpo. O segundo passo é fazer as pazes com o alimento que você considera proibido. Seja amigo dele, ao consumi-lo atente-se bem a ele, sinta seu cheiro e seu sabor e coma devagar, seu corpo irá ditar se ele realmente precisa desse alimento e o quanto, assim, você saberá aproveitá-lo mais e comer menos, ou até deixa-lo de comer por não sentir vontade nesse momento.


5-R.A – O que você acha da era ‘’COACH’’ ?

I.M –  O problema da era “Coach” é o profissional que se esconde atrás de seus certificados, querendo passar uma imagem de profissional atualizado e de sucesso, usando desse artefato como justificativa para elevar o preço de seus atendimentos frente a sua “superioridade” como sendo um método inovador.
O Certificado de coach nada tem a ver com competência. Aliás, possuo certificado de Coaching em Emagrecimento, mas nunca precisei pregar na parede ou colocar em minhas páginas dizendo que sou “Coach”. Sinceramente tenho que representar para meu paciente muito mais que uma titularidade que adquiri. As pessoas devem saber filtrar os profissionais por sua competência.


6-R.A – Quais os riscos de uma dieta totalmente restritiva ? Principalmente quando há pacientes com tendências a sofrer distúrbios alimentares?

I.M – Dietas e modismos alimentares é o que não faltam: retirar o glúten, retirar a lactose, dieta detox, dieta paleolítica, dieta da USP, dieta do tipo sanguíneo, dieta da proteína, low-carb... Enfim, temos uma infinidade de dietas ao nosso dispor. Mas no que elas se igualam? Na restrição!! Pesquisas mostram que dietas restritivas não funcionam para promover perda de peso em longo prazo. Mas é importante ressaltar também como consequências, o bloqueio no convívio social, monotonia alimentar, compulsão devido à restrição, efeito-sanfona e piora do metabolismo (a cada ciclo de dieta fica ainda mais difícil de perder peso), dificuldades cognitivas por falta de algum nutriente eliminado, queda no desempenho das tarefas cotidianas por carência energética, prejuízos clínicos, prejuízos psicológicos (como a distorção da imagem corporal) e obsessão por comida podendo progredir para um transtorno alimentar.
Transtornos alimentares são quadros psiquiátricos caracterizados por profundas alterações no comportamento alimentar e disfunções no controle de peso e forma corporal. Anorexia, bulimia, transtorno de compulsão alimentar, ortorexia e vigorexia são alguns dos transtornos alimentares mais frequentes na população brasileira atualmente.
Como solução aos pacientes que apresentam transtornos alimentares, a mudança de comportamento alimentar é de fundamental importância, excluindo-se dietas e listas de alimentos que pioram e dificultam o tratamento.

R.A – Já conversamos sobre o queijo amarelo, no qual eu estou ansioso para ver um post no seu stories (risos) aproveitando vamos falar dele aqui no nosso papo? Queijo amarelo é mais saudável que o branco? E como ele se enquadra em uma dieta?

I.M –Não, nenhum alimento é mais saudável que o outro e nenhum tem o poder de emagrecer ou engordar por si só. O que realmente importa quando se diz respeito à alimentação é para quem, para que e em que contexto nutricional ela se aplica, nesse caso o queijo. Existem vários tipos de queijos: minas frescal, muçarela de búfala, mozzarella, provolone, roquefort, cottage, ricota, prato, parmesão e muitos outros. Por aí você já viu a infinidade de queijos, não é? Dessa forma é muito triste se limitar apenas a um único tipo de queijo, por acreditar ser o menos calórico, ter menos sódio, menos gordura, menos isso e menos aquilo por porção, a não ser que você tenha realmente uma restrição, intolerância ou alergia a algum componente específico de algum queijo. Queijos com mais leite por quilo têm mais nutrientes (principalmente proteínas, gorduras, cálcio e vitaminas A, D e do complexo B), então é preciso balancear sua dieta incluindo vários tipos, se possível.
Uma alimentação saudável é aquela que não se limita a um único tipo de alimento de determinado grupo. O segredo está sempre na variedade, qualidade e procedência.

7-R.A-  No decorrer de um tratamento o paciente pode ir se experimentando no sentido de ir colocando alguns alimentos por conta própria de modo que ele possa se sentir melhor com uma inserção própria, claro desde que te comunique ? Por exemplo você indica pão integral e ele troca por outro alimento e se sente bem, é possível?

I.M – O meu objetivo como nutricionista comportamental é exatamente esse, fazer com que meu paciente tenha autonomia perante suas escolhas alimentares. A partir da escuta interna, que será resgatada e devidamente trabalhada, ele aprenderá a ouvir o que o seu organismo pede no momento. A flexibilidade alimentar torna o indivíduo mais sábio a respeito de suas escolhas, que por consequência terá mais tranquilidade, variedade e equilíbrio no momento de suas refeições.


8- R.A – Uma grande massa defende a tapioca (eu sou um deles – risos) o que você acha da troca do pão pela tapioca?

I.M - A tapioca é feita a partir da fécula de mandioca e o pão branco com farinha de trigo. Os dois são fontes de carboidratos que fornecem energia para o nosso corpo. Ao analisar uma porção de 20g de cada um deles, verifica-se que ambos apresentam alto índice glicêmico, o que significa que ao serem digeridos pelo nosso organismo, são rapidamente absorvidos. Em relação às calorias e composição nutricional, ambos são bem parecidos.  Os dois podem ser incluídos em uma alimentação equilibrada e não há necessidade de se “trocar” um pelo outro, mas alterna-los de acordo com sua rotina e preferências para não entrar em monotonia alimentar. Vale lembrar que para pacientes com diagnóstico de doença celíaca (reação imunológica ao glúten), a tapioca é uma boa alternativa como alimento fonte de carboidrato livre de glúten.
Mas não se esqueça que os alimentos isentos de glúten são comumente menos fortificados com ácido fólico, ferro e outros nutrientes do que os alimentos contendo glúten.  Alimentos sem glúten tendem a ter mais açúcar e gordura em sua composição, sendo que diversos estudos apontam a tendência para ganho de peso, obesidade e desenvolvimento de diabetes tipo 2 entre aqueles que seguem uma dieta isenta de glúten desnecessariamente. O segredo mais uma vez está na sabedoria e equilíbrio alimentar.


9- É possível comer Mc Donald’s, fazer dieta e ser feliz? (risos). Essa em especial para o meu personal que detesta quando eu como Mc Donald’s (risos)

I.M – Sim, claro que é possível! Se você tem uma alimentação equilibrada, variada e constituída em sua maioria por alimentos in natura (os frescos e naturais) ao longo do dia, um fast-food de vez em quando não vai te comprometer em nada. O problema de comer somente os lanches em redes de fast-foods é o excesso de conservantes e corantes, que nem sempre são bem aceitos pelo nosso organismo. É preferível o consumo de lanches e hambúrgueres preparados em nossa casa ou em hamburguerias artesanais, pois são as melhores opções quando se quer algo saboroso, com qualidade e de grande variedade nutricional. Coma aproveitando cada mordida.


10-R.A – Para finalizar uma bala pode ? (risos)

I.M – Sim, é mais que merecido!



Isa Moreno é Nutricionista Comportamental  inscrita no CRN-3: 51.293
Instagram: @isamoreno_g

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